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3 fevereiro 2010 | Artigos
Todo curriculista é um moralista
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O que não tenho pra dizer não sei como dizê-lo. Por isso vou aos trancos. Pra frente muito pouco pra trás quase sempre. Empaco. Se pareço andar é porque me empurram. Tem a ver com esta posição aqui. Do púlpito. Um pregador.
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É forçosamente uma posição de autoridade. Supõe que sei algo e que devo mostrar sabê-lo. Devo ser assertivo, impositivo. Não posso hesitar, parar para pensar, dar mostras de que posso ter dúvidas. Aqui, uma pausa mais prolongada causaria mal-estar. Seria uma mostra de fraqueza. De pouco saber. E, no entanto, não posso fugir disso. Até mesmo quando tento desfazer esta posição, é com autoridade que o faço. Se cheguei até aqui, se aceitei vir até aqui, sou, de algum modo, cúmplice desta investidura. Ao consentir, enquadrei-me. Sou suspeito, gostaria que soubessem.
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Avanço, pois, com cautela. Esforço-me por evitar o enunciado peremptório. Os imperativos, ainda que disfarçados de infinitivos, a indicar leis e decretos. Os artigos definidos a marcar a exclusividade e a totalização. As partículas que regem o absoluto: nunca, sempre, nada, tudo, todo mundo. Os verbos prescritivos que restringem as escolhas e fundam uma moral: deve-se, é preciso, é necessário. As generalizações. As afirmações grandiosas. As convocações e as convocatórias. Os sermões e as sentenças. As interdições e as permissões. Os gestos apocalípticos e as profecias milenaristas. A denúncia e a salvação. O que pode e o que não pode. Conseguirei?
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Sou tomado de pânico. Espera-se que eu diga algo porque se espera que eu tenha algo a dizer. E se eu não tiver nada a dizer? Pelo menos, nada de muito importante. Nem, muito menos, nada de certo ou verdadeiro. Para se ter algo a dizer é preciso acreditar em algo. E estar convicto. Ou, pelo menos, aparentar tudo isso. Aí já posso começar a pregar. Ou a ensinar. E a juntar fiéis. Ou discípulos. Já posso fundar uma igreja. Ou uma escola. Alguém aí?
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Deveria, por ofício, por motivo do convite, falar de pedagogia, de currículo, de educação. Falar de teorias, citar pensadores, criticar o estado das coisas. Depois, como convém, propor alguma solução, indicar uma saída, traçar um programa. E terminar com umas palavras edificantes, apelar para a emoção, proporcionar algum conforto. Não estaria senão sendo fiel ao roteiro de um gênero discursivo pisado e repisado.
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Antigo praticante do gênero, ele agora me desgosta. Será porque falta-lhe estilo? Ouço a mesma e antiga ladainha. Os fiéis ali em piedosa repetição.
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E o templo abarrotado de pregadores. Que sabem o que vai mal no mundo. Que querem melhorar o mundo. Que sabem como. Digo isso só piora. Mas os pregadores aos berros. Tapo os ouvidos. Todo curriculista é um moralista. Fui um deles. Ainda sou. Se me descuido.
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Agora mal tenho convicções. Já tive tantas. Nem contradições. Ou provocações. Não afirmo nada. Não nego nada.
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Da liga me desliguem. Do credo me desobriguem. Reuniões de fundação? Que cansaço. Assembléias de dissolução? Que perda de tempo. Direitos não reivindico. Das obrigações só peço que me livrem.
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Eu avisei. Não tinha nada pra dizer. Nem como. Se por engano ou imprudência ou atropelo disse algo agora apago. Se houve alguém a dizê-lo que se cale.




